Tanaka e Nakamura tinham vindo do Japão ainda bebês. Os irmãos viveram juntos desde sempre e, durante a juventude, se mudaram para São Paulo para tentar uma vida melhor. Passado 40 anos a pequena indústria que criaram tinha se transformado em uma das maiores do ramo no Brasil.
Por serem de uma família tradicional e nunca terem se casado tinham uma vida extremamente regrada. Saíam cedo de casa, antes das cinco da manhã e só voltavam depois das dez da noite. Almoçavam e jantavam todos os dias no mesmo horário e sempre a mesma comida japonesa.
Falavam pouquíssimo o português, não se interessavam em aprender também. Embora na década de 1980, quando a empresa cresceu muito, foi impossível manter apenas empregados japoneses ou descendentes, os irmãos ainda mantinham o hábito de só contratar pessoas da sua colônia para os cargos mais altos.
Embora comerciar no Brasil tivesse obrigado com que eles seguissem o calendário ocidental, na vida íntima ainda se comportavam como se estivessem no Japão. O Brasil era um local de visita, nunca fora a casa deles.
Por tudo isto, todos os familiares se espantaram quando, no funeral de Nakamura, o irmão de uma vida toda Tanaka pediu a palavra e disse uma única frase em português: “agora vou aproveitar a vida”.
Não falou mais nada e ninguém teve coragem de perguntar. Na verdade ninguém acreditava que aquilo daria em alguma coisa, mas no dia seguinte foi notícia em jornais que a empresa dos irmãos tinha sido vendida a um consórcio internacional.
Tanaka simplesmente sumiu. A boataria entre os familiares foi enorme. Os sobrinhos choravam achando que iam perder a sua justa e merecida parte da herança. Os mais velhos acreditavam que ele teria voltado ao Japão para buscar elevação espiritual. A garota hippie – toda família tem uma – já dizia que ele tinha ido andar pelo caminho de Santiago, mesmo sendo algo incompatível para um não-cristão de 65 anos.
Fato é que ninguém descobriu o paradeiro do tio Tanaka. E passada as primeiras semanas em que as buscas foram incessantes, inclusive visitas nas mais diversas horas até descobriram que não só a empresa, mas a casa também tinha sido vendida, a família simplesmente esqueceu o tio.
Surpreenderam-se quando no primeiro aniversário após a morte do tio Nakamura a figura de Tanaka se apresentou. Perguntaram a ele o que andava fazendo da vida e ele respondia com um enigmático: “estou aproveitando a vida”.
Como ele não responderia usando palavras tentaram tirar alguma informação pelo seu corpo. Mas ele não parecia nem mais magro, ou mais gordo. Nem mais bronzeado ou cansado. Nem melhor vestido, nem malvestido. Era o mesmo tio Tanaka que conheciam de sempre.
Os anos foram passando e a resposta nunca chegava. O tio Tanaka nunca faltava em um único aniversário, casamento ou funeral. Sempre respondia a mesma coisa quando perguntavam sobre o que acontecia: “estou aproveitando a vida”.
Como não conseguiam tirar informação alguma acabaram simplesmente aceitando o fato de que nunca iriam descobrir o que o tio estava fazendo. Mas tudo ficou ainda mais misterioso no casamento da sobrinha predileta de Tanaka.
Veja bem, ele nunca tinha faltado em um único acontecimento social da família. Faltar em um casamento já seria estranho. No casamento da sobrinha predileta? Apenas uma mensagem foi enviada em japonês: “Parabéns pelo casamento, faço votos de felicidade, desculpe não poder comparecer”. Logo abaixo, em português lia-se: “Estou aproveitando a vida”.
O tempo continuou a passar até que mais três anos depois deste casamento, dez anos após a morte de Nakamura, foi a vez do tio Tanaka falecer.
A família foi em peso ao funeral, todos muito tristes. Tristes em parte pela morte do Tio Tanaka, mas em parte também porque nunca iriam descobrir o que o tio tinha feito durante estes dez anos.
Para assombro de todos, descobriram rápido. No mar de olhos puxados e cabelos lisos encontrava-se uma mulata de corpo escultural, no máximo com 35 anos. Ao lado dois negrinhos com olhinhos puxados e mais um no colo.
Tinham descoberto. Após a morte do irmão Tanaka tinha encontrado Luziane e com ela feito três filhos. Descobriram mais tarde o motivo da falta no casamento da sobrinha. Era o mesmo dia do nascimento do 3º filho do casal.
O velho japonês tinha um último desejo, na lápide lia-se a frase: “Eu aproveitei a vida”. Ninguém teve coragem de dizer que não.






Vc. me surpreende a cada conto! (Ainda acho que vc. precisa parar de assassinar os protagonistas) rsrsrsrs.
É, eu realmente preciso parar com isso. Mas as vezes acho que é a única surpresa forte o bastante. O problema é que se todos souberem que no final o protagonista morre, deixa de ser surpresa, hehe
Gostei desse também… mas que Tanaka danadinho! Esse sim que aproveitou a vida, rsrsrs…