Se você é um daqueles que quando começa a ler algum livro ou ver um filme e já fica imaginando o final, lhe pouparei o trabalho. Eu morro no final.
Sim, eu sei que todos morrem no final, mas no meu caso o final é um pouco mais próximo, por volta de 3 a 4 horas, segundo os médicos. É o tempo que me resta. Claro que você não deve esperar um grande “Eu morri” na última linha deste texto, afinal, quando acontecer eu não poderei contá-lo.
Estou aqui para escrever algo que apenas alguém que está a alguns minutos de sua morte pode passar para você. Não sei como este texto chegou para ti, se foi através de amigos, ou correntes de e-mail (espero que não). Mas torço que você faça algum proveito com as palavras que eu irei escrever pelas próximas 3 horas.
Engraçado, tanto para dizer e a única coisa que vem a minha mente é aquela frase lá em cima: “eu morri”. É uma frase que nunca poderemos usar de verdade, né? Se falamos “eu morri”, estamos vivos, logo estamos mentindo. Se de fato morrermos, bom, não tem mais como dizer.
Desculpa! Não é por isto que você está aqui. Mas antes de falar o que eu quero para você acho que seria interessante você conhecer um pouco de mim. Afinal, como acreditar nas palavras de alguém que você não sabe nem o nome, né?
Me chamo Caio, tenho 33 anos, sou pai de 3 filhos lindos, lindos mesmo, não só porque sou pai deles, 2 garotos, um de 13, Caio Júnior, e outro de 10, Guilherme, e minha princesinha de 5 anos, Lúcia. Sou casado com Estela desde meus 19 anos.
Estou, literalmente, no meu leito de morte devido ao fumo, ou a consequência dele. Fumava dois maços de cigarro por dia e segundo os médicos foi isso que criou um câncer avassalador no meu pulmão. Quando eu comecei a tossir já era tarde demais.
Não culpo os cigarros. Não dizem que a vida é feita de pequenos momentos? Cada um daqueles cigarros foi um bom momento. De fato, agora, a única coisa que eu gostaria de estar fazendo era fumar mais um. Já estou morto mesmo, não vejo o porque não.
Minha vida foi normal, cresci num bairro relativamente pobre, minha maior diversão era jogar bola na rua. Odiava estudar, mas nunca reprovei de ano. Quando finalmente terminei o colégio não voltei mais numa escola a não ser para votar. Comecei a trabalhar cedo, tinha 14 anos. Mas também não é sobre isso que eu quero falar.
Acredito que a sua maior dúvida agora seja o que eu faria se me dessem mais um ano de vida, né? Gostaria de dizer que viajaria o mundo, conheceria muitas mulheres, passaria todo o meu tempo com meus filhos. Mas sei que tudo isso é bobagem. Se descobrissem hoje um remédio para me dar mais um ano de vida eu voltaria para casa e viveria minha vida normalmente como ela era antes, fumando, trabalhando… Até voltar a esta mesma cama daqui um ano.
Não, não tenho medo da morte. Já tive, quando eu era criança, tinha muito medo de morrer. Hoje não tenho mais. Tinha mais medo de perder as pessoas que eu amo. Esta talvez seja a grande ironia, não perderei ninguém, nem filhos, nem mulher, nem meus pais. Morrerei antes que todos.
Se eu faço ideia do que vai acontecer comigo daqui a… nossa, duas horas? Não, não sei. Fui criado como católico, mas a última vez que fui numa missa foi na primeira comunhão do meu filho mais velho. Não sei se eu devo esperar o céu, não fui tão bom assim na minha vida, nunca fiz nada de generoso. Mas não sei se o inferno também é o meu lugar. Tem coisas que eu vou ter que esperar para ver, né? Tá chegando.
Sei que vou perder muita coisa, mas só sofro de não ter ficado vivo o suficiente para ver minha princesinha crescer. Ela é muito esperta, sabe? Mal entrou na escola e já sabe ler algumas palavras. Puxou a mãe. Já os moleques são meio burrinhos como eu.
Ruim também porque não vou ver meu Corinthians ser campeão da libertadores. Mas fiz a mãe prometer que o dia que ele chegar a final, ela vai carregar os moleques para assistirem. Esse jogo não perderei nem do céu, nem do inferno.
Mas não é sobre isso que eu queria falar, na verd
Desculpa, minha mãe conseguiu chegar no hospital, ela mora longe, pegou um avião só para me ver. Os médicos deixaram que ela passasse uns 20 minutos comigo, para me despedir. Foi chato ver a véia chorar.
Minha mãe era muito brava quando eu era pequeno. Perdi a conta de quantas vezes eu e meus três irmãos apanhamos dela, de cinta, de chinelo, de fio, do que ela tivesse na mão. Mas ela fez certo, não fosse isso a gente tudo tinha se dado mal na vida.
Meu pai não veio, ele ficou organizando o comércio, disse minha mãe, falou que vai se despedir depois. Nunca tivemos uma relação muito boa, na verdade sinto que mal o conheço. Saia de casa antes de eu acordar todos os dias e quando voltava só tomava um banho, jantava e ia dormir. Passou anos que nem bom dia direito eu ouvi dele.
Droga, falta menos de uma hora segundo os médicos. E eu ainda não escrevi nada de interessante para você. Na verdade este é meu primeiro texto. Nunca escrevi fora da escola, nem ler. Acho que li uns três livros na minha vida. Dois eram de piadas.
O terceiro livro eu li quando era pirralho, ganhei de um professor. Não lembro o nome dele, digo, não lembro o nome do professor, nem do livro. Contava a história de dois moleques que iam para uma ilha. Lembro que eu li ele muitas vezes. Não faço ideia do que aconteceu… Nem com o livro, nem com o professor.
Então, eu estava faland
Droga, desculpa a demora. Uma enfermeira veio aqui fazer alguns testes, perguntou se estava doendo. Eu menti, disse que sim. Ela aumentou a dose do remédio contra dor. É gostoso, faz me sentir como se eu tivesse fora do corpo por alguns minutos.
Logo logo começa a sensação de novo. Enquanto isso deixa eu pensar em alguma coisa que possa te interessar. Espero que você não esteja esperando uma grande revelação ou coisa do tipo. Não sou destes. Na verdade é bem provável que este texto pare do nada, que eu não consiga mais datilografar.
Nossa, datilografar! Quem é que fala isso ainda? Tô ficando velho. Eu fiz aula de datilografia, lembro até hoje da minha mãe convencendo meu pai que datilografia era a diferença entre uma pessoa que veste terno e uma que é peão. Meu pai concordou em pagar o curso. Acabou que eu virei peão do mesmo jeito. Mas pelo menos serviu para eu conhecer a Estela.
Sei que isso não lhe interessa, mas sim, a minha mulher era a professora de datilografia. Todo dia eu chegava lá 7 horas da manhã e ela toda perfumada abria a escola. Ela tinha 19 anos na época e eu uns 13. Ver aqueles peitos na minha frente todas as vezes que ela se inclinava para ver minha lição… Nunca fui tão assíduo nos estudos igual naquela escola. Não faltei uma única vez.
Um dia, era emenda de feriado, acho. Só sei que todos os alunos faltaram, só ficou eu e a Estela. Na terceira vez que ela veio se inclinar na minha máquina para ver a minha lição não deu outra, nos agarramos. Acabou que fiquei uns três meses chegando uns 20 minutos mais cedo só para encontrá-la antes de abrir a escola.
Problema foi a vez que o chefe dela chegou na hora que a gente tava no maior amas
Foi o doutor agora. Me deu um acesso de tosse e ele veio checar se estava tudo bem comigo. É LÓGICO que não está tudo bem comigo. Eu vou morrer daqui… Vixe! Tô fazendo hora extra já. A dona morte deve estar ocupada. Lembrei agora das revistinhas da Turma da Mônica. Ia ser engraçado morrer e encontrar um fantasminha como aquele. Como é que se chamava mesmo? … Gasparzinho é o outro, do desenho…
Que seja. Mas que ia ser engraçado ia. Aliás, será que a gente encontra todo mundo que já morreu? Deve ter gente pra caramba que já morreu. Sei lá, desde Adão até hoje… É gente, hein? Pior que isso só a 25 de março.
Bons fins de ano indo comprar presente pra molecada, aquele fuzuê todo, os moleques querendo só as coisas eletrônicas e a muié só querendo sair dali o mais rápido possível e reclamando da quantidade de gente. Querendo ir no shopping. Problema é conseguir pagar. Aliás, isso me fez lembrar uma história muito boa num determinado natal saiu a família toda para o shoppk, cv






Boas inspirações, professor!
Para que o próximo seja ainda melhor… =)
E, lembre-se: só faltam 65!!! rsrsrsrs…