19/09/2011
por Sanro

O ÚLTIMO DIA DE TRABALHO.

Trinta e cinco anos se passaram dentro da mesma empresa e José Damião sentiu um aperto no coração ao pensar que aquele seria a última vez que entraria naquela fábrica.

Ao entrar, primeiro pensou em como as coisas mudaram. As máquinas, as pessoas e pelo menos uma vez o chão na grande reforma de 1989. Já havia percebido alguns anos antes que não pertencia mais aquele local. Afinal por só ter completado os 4 primeiros anos da escola nunca entraria naquele lugar hoje. Eram tempos diferentes quando ele começou a trabalhar lá. Enquanto hoje milhares de jovens se estapeiam por uma única vaga, naquela época qualquer um que conseguisse ficar 8 horas na frente de uma máquina estava contratado.

contos

Ficou encarando seu cartão de ponto por alguns segundos e se perguntou quantos ali o conheciam pelo seu próprio nome. Não que fosse desconhecido, todos gostavam dele, como gostam do vira-lata da rua. Acenam, trocam carícias e dão algumas risadas, logo depois saem sem olhar para trás. Mas apenas o chamavam de Cachaça. Não que a bebida fosse algum tipo de predileção. Cachaça tomava qualquer tipo de bebida alcoólica que estivesse em sua frente, desde uma leve cerveja até um destilado que poderia fazer funcionar um carro.

Se o tipo de bebida não lhe importava o lugar era sempre o mesmo, o bar do Miguel, um entre as dezenas de botecos que ficavam do lado da fábrica. No primeiro dia que recebeu seu salário Cachaça pediu a garota que servia o balcão de madeira: “- Algo para me esquentar, minha florzinha.”. E desta forma chamou a atendente durante todos estes anos. Atendente que se na época já não era exatamente bela para ser chamada de florzinha, 35 anos e 55 quilos depois não lhe tinham feito bem.

Mesmo assim, todos os dias depois de sair do seu turno, Cachaça repetia o ritual no bar do seu Miguel: “- Uma gelada hoje, minha florzinha”.

Lembrou-se da sua primeira mulher e o quanto ela reclamava da bebida. Tinham se casado apressado devido a gravidez resultante de um baile de carnaval. O coração doía pensando que ela o abandonara levando os seus 3 filhos ainda novinhos, os quais nunca fizeram questão de realmente conhece-lo, se importavam apenas com o dinheiro que ele enviava todos os meses.

No meio do seu turno de trabalho seu atual capataz veio lhe entregar novas ordens de trabalho para até o final do turno. Sabia exatamente que o único motivo dele nunca tê-lo mandado embora é pelo fato de que quando o novo chefe chegou faltava apenas um ano para Cachaça se aposentar. O antigo chefe era um grande amigo, tanto de papos, quanto de bebidas, tinha se aposentado no ano anterior e apesar das inúmeras promessas de se ligarem e saírem para beber, nunca mais tinha ouvido falar dele. Sentiu o coração se apertando novamente.

Mais tarde fizeram uma festinha de despedida, onde além da faixa que se lia “Cachaça é um bom companheiro”, lhe entregaram um relógio de ouro tão falso quanto o amor de sua segunda esposa.

Pensou na “crentinha”, como ele gostava de chamá-la, e ficou ofegante por alguns segundos. Tinham se encontrado na frente da Igreja onde Gisele fazia o culto e Cachaça estava dormindo depois de ter exagerado mais do que o normal na bebida. Gisele tinha sido abandonada uma semana antes por Ricardo, seu noivo. Rick, como todos o chamavam havia lhe jurado que nunca a deixaria, mesmo se ela perdesse a virgindade com ele antes do casamento. Sumiu no outro dia. Inconsolável, Gisele acreditou que o homem estirado a sua frente logo depois das doces palavras do pastor era um sinal divino e deveria cuidar de Cachaça.

Aliás ela era única pessoa que chamava-o pelo nome. E em três meses estavam casados, não sem antes o agora José Damião ter sido batizado. Iam ao culto todos os dias, com exceção de terça e quinta, que o pastor tinha outros compromissos. Se de fato não havia amor entre os dois, serviu ao menos para que José Damião parasse de ir ao bar do Miguel. Começou a fazer turnos extras, afinal tinha duas famílias para sustentar, a da antiga mulher e a da nova.

Um dia, numa terça-feira em que iria fazer serão, cortou seu dedo, ao que os colegas mais tarde brincaram dizendo que o Cachaça não conseguia trabalhar sóbrio. Mesmo não sendo grave o médico da enfermaria mandou-o para casa mais cedo.

Ao chegar em casa descobriu o porque não havia culto as terças, pois encontrou o pastor junto com a crentinha na sua cama. Cachaça só teve tempo de sair e foi direto ao bar do Miguel. Teve dificuldades de conseguir tirar da cabeça os sons da crentinha gritando “aleluia”.

Não sabe como, mas nesta separação perdeu a casa que tinha construído, só lhe sobrando o carro que tinha tirado zero km da fábrica em milhares de prestaçōes porque a crentinha tinha tanto lhe pedido. Como não tinha onde morar logo o carro se transformou num barraco com dois comodos. O dinheiro do mês era em pensão, aluguel e as bebidas no bar do Miguel.

Com o coração na boca, Cachaça olhou para o novo relógio e viu que faltavam poucos minutos para sua vida de trabalhador acabar. Não tinha feito planos para depois. Sabia que ia sair de lá e ir para o bar do Miguel. Isto era tão automático, quanto mexer na máquina e bater o ponto. Gastaria ali os últimos trocados amassados que tinha em seu bolso e voltaria para casa. Se conseguisse chegar lá sem cair pela sarjeta, dormiria no seu colchão que estava em cima de blocos de concreto.

O sinal bateu e junto com centenas de companheiros foi se encaminhando para o relógio do ponto. Quando marcou o seu, sentiu um novo aperto no coração, deu dois passos e caiu. Estava morto antes mesmo de alguém conseguir ligar para ambulância. Acabou que aquelas dores não eram nem saudades, nem tristeza, mas um ataque cardíaco.

No seu velório, nenhuma das ex-esposas apareceram, nem seus filhos. Ali apenas alguns de seus colegas de trabalho, que estavam lá apenas porque sabiam que a falta não seria descontada em seus holerites e teriam o dia todo de descanso.

A única pessoa que chorava era “florzinha”, que foi a única mulher que realmente gostava de Cachaça. Tinha dito a ele por diversas vezes que o amava, mas desmaiado pela bebida, Cachaça nunca soube. Alguns jogaram flores sobre o caixão, florzinha jogou uma pequena garrafa de vodca e murmurou como se fosse uma piada antiga que só ela e Cachaça entenderiam: “Para lhe esquentar, meu docinho”.

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14 respostas para “Um Conto – Um texto para você NÃO ler.”

  1. Aline
    19/09/2011

    Prmeiramente, quero agradecê-lo por ter escrito esse conto. Afinal, mesmo vc nem no leito de morte confirmar, mas ele foi escrito pq eu pedi!!! rsrsrsrsrs…. =)
    O bom é que eu não me arrependi de ter pedido! No fundo, sabia que ia sair coisa boa!!!
    E, que boa surpresa saber que vc não escreve bem só pra falar de games…
    Parabéns, Rodrigo!
    Se anime e escreva mais, por favor!
    Ter talento para escrever, como vc tem, não é pra todos!
    Já espero pelos próximos!!! =)

    • 24/09/2011

      huahua Não nego, não… Acabei ficando com vontade de escrever um conto depois de você ter me enchido tanto o saco :P

      Que bom que gostou ^^

  2. Kuinkz
    22/09/2011

    Legal legal muito bem escrito. Parabens!

  3. Buttons
    01/10/2011

    Muito bem escrito o conto, me lembrou da realidade que eu vejo dia após dia com pessoas como o “Cachaça” e me faz pensar no quanto vale à pena ser divertido e ter uma popularidade casual. E claro, vivendo num mundo de diversão barata deixa cego (pro bem-querer inclusive, como no conto)

    Viver pra ser divertido e inconsequente é o que vejo 99% dos meus amigos fazerem, entre uma cerveja ou um “baseado”. E o fim de alguns, que infelizmente pude acompanhar, não foi muito diferente do fim do personagem do conto…os boas-horas se afastam, dois passos, um infarto e um velório vazio.

    Parabéns!

    • 03/10/2011

      Muito obrigado cara. Sabe que a cada vez que alguém vem conversar comigo sobre esse conto ele cresce um pouco dentro de mim. Eu não tinha idéia de como este texto iria atingir tanta gente e de maneira tão diferente como aconteceu.

      De pessoas falando que é romântico, até depressivo.

      Fiquei feliz que ele tenha sido bom para quem leu :)

  4. André
    02/10/2011

    gostei do história!!!
    ficou muito bom, acho que vc deveria escrever mais desses!

    • 03/10/2011

      Valeu :)
      Esta semana eu devo soltar outro. Espero que atenda as expectativas.

  5. Dia
    07/01/2012

    Nossa, muito bom.
    Eu não sei se você conhece a música Construção do Chico Buarque, mas o texto me lembrou a música. Se você não conhece, ouça, não sei se faz seu estilo mas acredito que você vá gostar.

    • 07/01/2012

      Muito obrigado. :)

      E ótima dica, eu sinceramente não conheço muito de Chico Buarque (um saco para eu me esconder de vergonha, por favor), mas adorei a música.

      E só o fato de você ter se lembrado da música por causa do meu texto já me encheu de orgulho por ele, eheh…

  6. Lya
    07/01/2012

    Crase, amigo. Crase.

    • 07/01/2012

      Meu calcanhar de aquiles. Sinto muito que isto tenha atrapalhado você na leitura do conto.

  7. henrique dk
    09/01/2012

    Muito bom o texto, deixa o leitor pensativo.
    Parabéns!
    =D

    • 09/01/2012

      Muito obrigado. Espero que goste dos outros também ;)

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